segunda-feira, 18 de maio de 2009
Plantar para colher
Analisando o cenário agrícola mundial - e o brasileiro, em especial - notamos um passo adiante no que víamos a anos atrás, vivemos uma era "pós-revolução verde" da metade do século passado onde a crença geral era de que só a expansão em larga escala do processo monocultor e a subsequente introdução de tecnologias (com agrotóxicos num primeiro momento e engenharia genética posteriormente) poderia suprir a necessidade latente do ser humano por alimentação e matérias-primas, apesar de ser uma visão atrasada do ponto de vista ambiental, ainda é a maior face agrícola principalmente no nosso país e estado.
Porém, erroneamente, creditava-se às espécies cultivadas o papel de vilãs; quem nuca ouviu boatos acerca de como o eucalipto seca a terra terminando com a água do subsolo? Francamente descredibilizo esse tipo de opinião senso comum e sem embasamento científico justamente porque as práticas da agricultura intensiva, por si só, acumulam argumentos contra as mesmas e ela própria utiliza-se deste tipo de argumentação para manter a empresa agrícola a salvo buscando, em teoria, aprimoramentos para que as esécies se tornem menos agressivas ou danosas ao solo.
Mas se concordamos que as espécies por si só não comprometem a estrutura ambiental, por que demonizá-las tanto? Porque aparentementemente são as plantas cultivadas que causam os estragos, mas se aprofundarmos um pouco a análise vemos que a estrutura da empresa agrícola ultrafundiária monocultora que está exaurindo o fator de produção mais caro e não renovável, a terra.
Se depreendermos da época da supervalorização fundiária como conceito central de modo de produção, no caso, do feudalismo, sabemos que um dos maiores avanços de produtividade foi a descoberta da rotação de culturas, onde utilizava-se culturas diferentes ao longo de um período curto de anos e cada uma para que não se esgotassem todos os nutrientes da terra, já que plantas diferentes utilizam minerais diferentes.
Porém quando analisamos a plantação do eucalipto ou do pinus devemos levar em conta a seguinte informação: que sua extração ou colheita se dá em três etapas, uma aos 7, a segunda aos 14 e a terceira e definitiva aos 21 anos de idade. Portanto trata-se de uma monocultura de grande escala que fica usufruindo dos nutrientes de determinado espaço por mais de duas décadas. Assim concluimos que a culpa não é da espécie em si, mas do manejo utilizado sempre a maximizar o lucro e minimizar os custos, sem se importar com os reflexos de longo prazo no meio ambiente.
Outro aspecto que me preocupa é a utilização dessas espécies como via alternativa de reflorestamento, já que, como analisamos anteriormente, esse tipo de plantação caracteriza -se como monocultura e não como reconstituição de mata. Vê-se que em suas regiões típicas (eucalipto na austrália, por exemplo) essas espécies são fundamentais e indissociáveis de seus biomas, convivem com dezenas de outras espécies vegetais e animais num sistema complexo. Aqui são espécies forasteiras sem qualquer tipo de controle. Cabe como exemplo a Holanda, onde há, atualmente, programas para erradicar estes reflorestamentos homogêneos de pinus, dos séculos XIX e XX, e deixar que a natureza restaure a biodiversidade. Certamente daqui a cem anos os assim chamados ‘países em desenvolvimento’ terão que adotar medidas drásticas similares, mas sem esquecer que a biodiversidade perdida aqui é infinitamente amior do que a dos Paises Baixos.
Por isso devemos analisar o sentido que a agricultura de florestas está tomando e, a partir dela, ampliarmos o debate para toda a estrutura agrícola monocultora que - do ponto de vista de seu poderio econômico - está tão forte como sempre foi, porém está destruindo ruidosamente algo irreparável: nossos meios de subsistência como espécie humana.
Assinar:
Postagens (Atom)